quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Espeto ao contrário

Vivo
ser
espetinho de churrasco
carne esquartejada
atravessada por espeto
enroscada em farinhas
dissimulação do corte
e sabor
Espeto ao contrário,
sem consciência,
cânion despelado,
dobradinho, úrico
massa pobre
surpresa nobre
de peça real
fazendo a coorte
da faca ciente do meu fim
Amar
é devorar em cubos
2008

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A descoberta de outra América

Assistir à "A descoberta das Américas" é ter o privilégio de participar daqueles momentos raros em que o milagre teatral acontece, surge da simples mas difícil tríade: ator-espaço-público. Falar da genialidade de mais esse texto de Dario Fo é redundância. Difícil é encontrar um ator à altura de dar conta, com sua voz e corpo, e sozinho em cena desse monólogo, de recriar todo o universo de um épico - narrador e personagens. Apesar dos parcos recursos do espaço em que a peça é apresentada no Espaço Caixa Cultural em São Paulo (um antigo saguão de banco e sobre um simples tablado de madeira, com luz geral), o ator Julio Adrião não precisa de nenhum outro recurso que não sejam a sua voz e os seus gestos para, através de onomatopéias, gramelôs e vozes contar a sua história como faziam os bufões na Idade Média. Ele é o cenário, ele é o figurino, ele é a iluminação e a sonoplastia, ele é o giullare carioca, ele é Ator com letra maiúscula. Pena que a curta temporada deste espetáculo que tem percorrido o mundo há quatro anos só vá até o dia 1/11. Quem for, verá!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Fado do cabide

(letra para um fado)

Vivo dos luares que guardei
nas lembranças do amor que outrora tive
É desse mal a dor que agora vivo
e do sal que sabe às bocas que beijei

Vivo no presente resgatado
o passado que de tanta imagem sei
amores de lembranças tricotadas
tearam-se entre as notas deste fado

São amores que resistem pendurados
em cabides numa vara sem razão
canastra empoeirada de saudade
vestes de um armário bem trancado

A porta do armário que se abre
Perfuma com seu mofo o ambiente
Fujo para trás, finjo vestir
um traje que já não me cabe

@Copyright by A. Carrico. Todos os direitos reservados.

domingo, 4 de outubro de 2009

Venha a nós, Piccolino

(imagem extraída de roselysilveira.blogspot.com)

Venha a nós, Piccolino, para abrandares
essa avalanche de pesares
que assola a Terra,
em guerra!
Abrandai a cobiça desses animais,
criaturas egoístas
que já não se reconhecem iguais.
Lavai no sangue de suas chagas
a ação mal intencionada
dos que se apropriam das divinas criações.
Fazei de teus olhos faróis, vulcão
de irradiação fraterna,
aquecendo a caverna
de todo mau coração.
Amarrai no laço de teu roto cordão
as aflições, angústias,
desditas e desterros,
perpetradas pelos erros
dos que se esquecem de amar.
Salvai aqueles que já não têm voz prá berrar.
Acendei a chama de sua fogueira ecumênica,
que comunicou através da liberdade
a paz, a caridade,
aos povos dos quatro cantos em irmandade.
E com a luz da irmã sua,
Clara santa, estrela lua,
padroeira da televisão,
clareai os caminhos dos
que não querem ver
porque esquecem quem são.
Soprai, Poverello, com a força do vento
a fobia dos que correm contra o Tempo,
dos que não se dão as mãos.
Balançai, com o ar de teus braços abertos,
a certeza dos doutores,
a consciência dos espertos.
Príncipe da Paz,
banhai-nos na água,
que com sua doce voz, suave e clara,
refresca o dia,
e a sede nos sacia.
E limpando-nos dos desamores,
perfumai-nos de suas flores, relembrai-nos seus cheiros.
Adonai-vos de nossos destemperos,
livrai as imensidades,
serenai as ansiedades.
Cantai na língua dos pássaros,
em teu banjo,
a melodia dos arcanjos.
Trazei tua santa insatisfação
para que mudemos o mundo em terno,
e sosseguemos este inferno
numa linda canção.
Ganhai nossas ruas de novo, cavaleiro do povo,
hasteando tua bandeira de beleza.
Volta agora à Terra e em romaria,
onde houver tristeza, leve tua alegria,
velho Chico, jogral e brincante,
senhor dos presépios e dos mamulengos,
dos quatro elementos,
enterrai os tormentos na Paz e no Bem.
Amém.
(texto escrito em 2003)


À benção, Alter Christo! Salve teu dia 04 de outubro!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rio de Janeiro, meu amor

Durante muito tempo ficou feio falar bem do Brasil, elogiar as melhoras do país pegava mal. Herança dos anos da mentira, das ditaduras, desconfiança por uma classe corrupta de instituições decadentes e de políticos corruptos. Isso impede muitas vezes as pessoas de elogiarem aquilo que vem melhorando. Viajei recentemente para fora e nunca na vida pensei que veria tanta gente se reportar a mim como brasileiro da maneira como fizeram; nunca vi tantas manchetes internacionais positivas sobre o país. Acho que a escolha da cidade mais bonita do mundo, o Rio de Janeiro, para finalmente sediar uma Olímpiada é apenas reflexo disso, de que o Brasil ocupa uma posição de destaque dentro da nova ordem mundial (não apenas economica e política mas também simbolicamente). E isso pega mal para as hordas de urubus que insistem em apenas alardear nossas mazelas e fechar os olhos para o nosso desenvolvimento. É preciso ver que muita coisa começa a dar certo. Talvez agora será a vez do Brasil, como realidade original que é, dizer algo de original ao mundo. E fico feliz porque nunca concordei com a fabricação de uma capital artificial para o país, Brasília, apesar de adorar a arte de Niemeyer (o desvio da capital foi um dos graves equívocos de JK, no meu ponto de vista). Para o mundo o Rio sempre foi e continua sendo a capital desta República e para nós, se não o é de direito, segue sendo nossa capital espiritual. Em que pese São Paulo ser a locomotiva destas terras brasilis, São Sebastião do Rio de Janeiro é a síntese da nossa alma, nosso cartão de visitas. Minha querida Rio de Janeiro, esta é a sua chance de mostrar que você não é feita só de violência e corrupção.

sábado, 8 de agosto de 2009

A culpa não é do espelho se a cara é torta

A política brasileira ainda não saiu do século XVI. Desde a nossa colonização, ou invasão, pelos portugueses, quando foram designadas as capitanias hereditárias, cada mandatário de cargo público se sente no direito de fazer o que bem quiser. No primeiro documento oficial que nos cita como entidade territorial, Pero Vaz de Caminha pede um emprego para o seu cunhado. Aliás, segundo Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, o cunhadismo era uma prática cultural comum entre os povos indígenas, aproveitada e ratificada pelos colonizadores que a transformaram em troca de favores. Se por um lado a democracia consolidou-se desde o fim da última ditadura, por outro, o paternalismo é o que assemelha nossa república aos regimes autoritários.
Um caso que espelha claramente a postura de coronel dos políticos brasileiros é o recente bate-boca entre eminentes senadores, na última segunda-feira. Pedro Simon usou da tribuna do Senado para defender o afastamento de José Sarney; Renan Calheiros declarou que, apesar daquele sermão, em particular, seu nobre colega gaúcho acabara de manifestar solidariedade ao político maranhense. Simon aproveitou para rememorar um episódio de 17 anos quando, segundo suas palavras, na ocasião do impeachment de Collor, Renan teria apoiado seu ex-padrinho e conterrâneo para mudar de postura só depois da certeza da derrocada collorida. Collor tomou a palavra e, visivelmente abalado, deflagrou uma série de vitupérios contra Simon, numa linguagem próxima dos discursos da época de Getúlio Vargas e Adhemar de Barros. Collor, filho de um senador que matou um desafeto político em plenário, à queima roupa, e neto de um ministro getulista, discursou como se ainda fosse um manda-chuva, com um semblante cerrado de ditador tentando intimidar o tribuno que outrora tanta dor de cabeça já lhe causou; a ele e a Renan. Tanto Fernando quanto Calheiros renunciaram para não serem expulsos. Um da presidência da República – a mesma já ocupada por Sarney – por ter instalado uma quadrilha dentro do Planalto. O outro, renunciou da presidência dessa mesma casa, o Senado, por pagar a pensão da ex-amante com dinheiro público. Algumas acusações de falcatruas parecidas com essas, pautadas em claros indícios, pesam sobre a cabeça de Sarney.
De todo o circo promovido na reabertura das sessões do Senado, fica claro o tom do discurso dos senadores Renan e Collor. Falam como donatários de capitanias, como se estivessem acima da média do povo. Nenhum se coloca como representante legal da população; nenhum sustenta na voz o mandato em prol da coisa pública. Querem antes defender as suas “honras” coronelescas, as suas carreiras políticas, os seus patrimônios, os seus mandatos repetidos ad infinitum. Afinal, no Brasil, a coisa pública é terra de ninguém, basta ver o estado dos nossos orelhões e praças públicas. Basta ver as pichações e depredações dos nossos monumentos. Nesta terra, político é aquele que se locupleta.
Em 1835, o dramaturgo Nicolai Gogol, denunciando a corrupção da Rússia da sua época, escreveu na peça “O inspetor Geral”: “A culpa não é do espelho se a cara é torta”. Tanto Collor quanto Renan culpam a imprensa pelo desejo da opinião pública de que Sarney, no mínimo, renuncie à presidência do Senado. Expiam nos jornalistas seus próprios pecados. Mas a imprensa brasileira é, e sempre foi, apenas o espelho dos fatos. Ela não tem culpa se a nossa Câmara Alta tem a cara torta.

sábado, 18 de julho de 2009

Série As Cidades - Paris: a felicidade se compra

A "velha dama" vista do Arco do Triunfo, 1998
Rua de Montmartre, 1999

Ponte Alexandre III, 2003


Fachada na Praça da Bastilha, 2007







Se eu fosse escrever um livro de auto-ajuda, diria que a felicidade se compra e o preço não é tão caro para quem tem emprego fixo e se esforça para economizar por um objetivo. A receita é simples: pegue uma passagem aérea para Paris, junte-a à reserva de um hotelzinho barato mas com alguma graça num bairro charmoso e depois de instalar-se na Cidade Luz, compre uma baguette numa boulangerie, umas fatias de queijo, uma garrafinha pequena de vinho, pegue o primeiro livro que estiver numa banca promocional de porta de livraria e sente-se sob uma fresta de sol num banco do Parque de Luxemburgo, ou então, coloque-se naquelas mesinhas minúsculas que ficam nas calçadas dos cafés e permita-se ver a vida passar na elegância espontânea das mulheres, os casacos, os cachorros; permita-se sentir os perfumes, ouvir a melodia do francês bem falado, os acordeonistas que tocam Piaf na esquina, os sinos das igrejas, enquanto saboreia um café-creme com croissant, ou então, escolha uma mesa num bistrô que tem menu escrito na lousa no Quartier Latin e peça uma taça de champagne, um consomé com croutons de entrada e um crepe do sabor que mais gosta, ou então, embale-se pelo som de arpejo mecânico que sai de dentro do carrossel que está de frente para a Torre enquanto torcicola o pescoço admirando-a ao saborear um waffel de Nuttela. Se ainda assim não curar sua deprê, perca-se na alternância entre vielas e boulevards do Marais, da Ilha Saint-Louis, de Saint-German-des-Prés e, quando der vontade, entre em algum museu como o Beaubourg, o d’Orsay, o Orangerie, o Museu de Cluny, o Museu Rodin... passe um dia inteiro no Louvre sem se frustrar porque uma vida seria pouco para conhecê-lo. Suba até a colina de Montmartre para ver o vinhedo que ainda resta, os pintores nas pracinhas, o Espaço Salvador Dalì, mas faça à pé como Amélie Poulain e descubra a melhor vista do município. Reze, mas reze muito, mesmo que você seja ateu, dentro da arquitetura de Notre Dame, da Madeleine, do Sacré Coeur, na igreja de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, de Saint Gervais, da Sainte Chapelle (já vi muita gente se converter diante de seus vitrais), de Saint-Sulpice, acenda uma vela e agradeça a Deus por ter iluminado o homem a construir uma cidade tão bonita. Atravesse o Arco do Triunfo, desça os Champs-Élysées até o Petit Trianon como se cruzasse com a Catherine Deneuve ou Lênin, Proust ou Beckett, Jim Morrison ou Carla Bruni, e só então cruze a esplendorosa ponte que o czar Alexandre III doou para sua cidade preferida, coroando o rio Sena. Se caminhar em linha reta você chega na Place de la Concorde e conhece o obelisco que Napoleão confiscou de Luxor. Mais adiante, atravessando as fontes do Jardim das Tuileries, contorna o Louvre, dobra à esquerda e dá de cara com a Ópera Garnier. Recomendo entrar, mesmo que detestar o bel canto: só por admirar o teatro já vale a visita. Atrás deste palácio da Alta Cultura estão alguns outros, da Alta Costura. Mas se a sua carteira for do jeito da minha, há uma solução: as Galerias Lafayette (não sinta culpa em fazer umas comprinhas).
Se você for mesmo um ser humano, qualquer uma dessas atividades vai te deixar muito feliz. Se deixar-se envolver pela atmosfera da cidade, tudo o que você fizer será um prazer, mesmo aquele lerê cheio de turistas ou qualquer outro programa de índio, até mesmo algum evento que der errado. As decepções em Paris são suas melhores surpresas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Série As Cidades: Cairo, poeira âmbar sobre o Nilo

Ruela no mercado de Khan-el-Khalili, Cairo, 2007
Ao longo destes textos sobre as cidades tenho experimentado uma mistura de crônica, caderno de viagem, reportagem com dicas turísticas (quero ajudar quem está para viajar mesmo), artigo com reflexões sobre o espírito dos lugares. Hoje escrevo sobre a capital egípcia.
Quando o quediva Ismail subiu ao poder em 1863, o Cairo era uma cidade medieval cujo mapa de ruas pouco mudara em 500 anos. Educado na França, ele empenhou-se em modernizar a cidade, mantendo as construções da parte velha à leste e erguendo à oeste prédios equiparáveis ao que de melhor a arquitetura da moda tinha nas capitais européias no século XIX. O Centro do Cairo, portanto, é como um bairro de Paris mal preservado. O Cairo é uma das cidades mais densamente povoados do mundo. Sede política e financeira do país que abrigou uma civilização milenar do deserto, e que cresceu dependendo unicamente das cheias do rio para sobreviver, a capital é cortada pelo Nilo e é toda amarelada, por conta da areia que o vento traz. Na margem direita está o Centro que, como de resto todo o Egito, tem o pior trânsito do mundo (é preciso muuuuito cuidado para não ser atropelado). As ilhas de Gezir e Rhoda estão no centro do rio, são oásis em meio ao caos urbano. Rhoda foi onde a cidade começou e guarda marcas do império romano e dos cristãos primitivos. É lá que vivem os coptas, cristãos ortodoxos que são apenas 10% da população. Eles dizem que foi numa gruta por ali que a Sagrada Família se refugiou quando no exílio. Os coptas mantiveram sua língua apenas para fins litúrgicos. Ela é o que de mais próximo restou do antigo idioma dos faraós, apesar de ser grafada no alfabeto grego.
Mas a parte mais bonita da cidade está nos bairros islâmicos, com suas vielas cortando prédios empoeirados da Idade Média, domos e bazares que remontam às descrições da Sherazade nas 1001 noites! O bairro rico de Heliopólis está à nordeste, enquanto Gizé e as famosas pirâmides ficam à oeste.
O Cairo tem tantas mesquitas quanto Roma tem igrejas. A primeira vez que a gente ouve os muezins (responsáveis por chamar o povo à prece) anunciando as orações do alto dos minaretes é de levar às lágrimas. Cinco vezes ao dia suas vozes metálicas ecoam pelos alto-falantes. Alá nunca foi tão grande quanto nesses lamentos remotos, vindos do horizonte, às vezes numa confusão sonora que se mistura às buzinas dos carros. O templo gigantesco de Mohammed Ali domina a colina mais alta do Cairo Islâmico. À sua volta está a fortaleza da cidadela e a melhor vista da cidade. Próximo da Universidade de Al-Azhar, o centro intelectual que preservou durante séculos a cultura árabe, fica o mercado de Khan-al-Khalili, o coração comercial do Cairo há quase mil anos, onde os vendedores oferecem chá e simpatia para barganhar suas mercadorias que vão desde babuchas feitas de couro de camelo, especiarias e souvenirs até objetos de vidro colorido que são “assoprados” ali mesmo, na rua. Nos cafés da redondeza não se come nem se consome álcool, uma ironia da cidade cuja civilização inventou a cerveja. Os homens jogam gamão, bebem café turco, chá e fumam chícha, que é como os cairotas chamam o narguilê. Há muita fumaça e gritaria pois a conversa mais amena de um árabe pode nos parecer uma briga.
Muitas páginas seriam poucas para descrever o Cairo, seu Museu Egípcio, os homens de mãos dadas, as mulheres maquiadíssimas, as falucas deslizando ao sabor do vento pelas águas do Nilo no fim da tarde enquanto Rá, o deus Sol, se põe de âmbar por trás da silhueta das pirâmides vistas de alguns pontos ao longe.

sábado, 11 de julho de 2009

O jubileu de ouro de carreira do rei

Roberto Carlos é um dos maiores mestres da canção popular em português. Se levarmos em conta que canção é um gênero que deve unir palavras à melodia numa harmonia o mais próxima da fala possível, quem maior que o rei? Como compositor, metade do seu brilho deve-se ao injustiçado Erasmo (que eu adoro) é preciso dizer. Mas o Erasmo, outro gigante, dá outro post. O quê criticar em canções como: "Como é grande o meu amor por você", "Despedida", "As curvas da estrada de Santos", "Detalhes", "Você não sabe", "De tanto amor", "Costumes", "Debaixo dos caracóis", "Desabafo", "Emoções", "Esqueça", "Sua estupidez", "As flores do jardim da nossa casa" ? Letras simplérrimas, que qualquer um entende e repete imediatamente, refrões leves, perfeitamente ajustados às melodias, e algumas com harmonias bem interessantes. Em arte, o simples é o mais difícil. Tem a fase erótica, de "Cavalgada", "Café da manhã", "Proposta", "Concavo e convexo", "Os seus botões", "Seu corpo"... Quando a gente tá apaixonado, está tudo dito ali. Da parte religiosa, gosto muito de "O terço". Quem tem coragem de questionar uma vírgula da letra de "Fera Ferida"? Roberto também é um ótimo cantor, suave, de tessitura aveludada e técnica apurada, canta como se falasse, sem esforço atinge notas difíceis na intensidade que as emite, evita vibratos no melhor estilo bossa-nova. Aliás, ele começou jovem imitando João Gilberto, depois formou uma banda de rock com Erasmo e Tim Maia, virou "roqueiro" da jovem guarda, hippie, e só depois a persona romântica que cristalisou. O disco dele com músicas do Tom que gravou no ano passado ao lado de Caetano é uma pérola. Também é muito carismático, ótimo de palco, com aquela cara de índia velha continua derretendo mocinhas! E tem uma feição de gente do povo; reserva sua vida particular e não vive emitindo opinião sobre tudo. Muita gente reclama que o especial dele é igual há 300 anos, mas aquele show, que eu já vi ao vivo, é a cristalização de um trabalho de anos de depuração, o formato final criado por ele e que, a essa altura, dificilmente irá mudar. Roberto trabalhou muito para chegar naquilo. E quanto ao conceito de brega... bem, brega para mim é quem ainda se prende a essas classificações incoerentes. Todo mundo chama de brega aquilo que não gosta (já ouvi chamarem de brega de Tom Zé a Vivaldi!) Que a produção de Roberto, como compositor, caiu muito dos 80 em diante, eu concordo (ainda que como cantor ele amadureça a cada ano). Mas que ele é um gênio, isso ninguém pode negar.

A morte de um suposto "rei"

Achei exageradas as homenagens a Michael. É mais uma das megalomanias do astro, praticada em seu nome pelos que ficaram. Michael Jackson foi um dos maiores dançarinos da indústria cultural, comparável apenas a Fred Astaire e Donald O'Connor. Na minha geração todas as crianças imitavam suas coreografias. É só ouvir a batida de suas músicas e ver a espontaneidade de suas danças que temos vontade de segui-lo. Era também um ótimo cantor, tinha uma voz muito bonita, a meu ver, na primeira fase, até inventar aqueles garagarejos e maneirismos vocais (talvez do Bad em diante). Também era um compositor bonzinho. Adoro sua fase mais adolescente, até o começo dos 80, sobretudo ele cantando Ben. Adoro Caetano cantando Billie Jean e Black and White. Talvez o maior talento dele, além da conjunção de todos esses, tenha sido, unido ao genial produtor Quincy Jones, criar o estilo de conexão entre arranjo-disco-clip-megashow performático do que configurou-se como o showbiz contemporâneo. Isso é criação dos dois. Não quero julgar aqui as esquisitices e processos judiciais do astro. Também acho injusto o julgamento que a opinião publica faz em cima da privacidade dos artistas. Aliás, o que ele sofreu na mão daquele pai na sua não-infância explica muita coisa. Os astro-mirins são condenados pelo resto da vida (vide Jude Garland, Pixote, Simony, Polegar, etc) . Selton Mello, que também foi um astro-mirim, vive dizendo que é um sobrevivente, teve sorte. Por isso acho muito bom o que a Promotoria fez com a Maysinha do Silvio Santos. Lugar de criança é brincando e na escola, no máximo. Mas o que se fez como féretro, um velório-show com fila e distribuição de ingressos, é absolutamente uma aberração!