sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O Logos encarnado
Saboreio cada página do livro "Deus não existe!" (ed. Vozes, 2008), escrito por Jean-Yves Leloup, ex-monge dominicano, hoje sacerdote ortodoxo (pois foi expulso da Igreja Católica Romana). Leloup é teólogo, PHD em Psicologia e filósofo. A ideia central do livro, profundo, poético e surpreendente, é a de que Deus não existe, ele é (Para Moisés Deus respondeu, "Eu Sou"). Surgiu quando um amigo ateu disse a Leloup: "Deus não existe mas eu rezo para Ele todos os dias". Se Deus existisse, como tudo aquilo que existe, um dia ele teria de deixar de existir. O verdadeiro Deus não existe e toda a apropriação do "verdadeiro" seria uma fábrica de ídolos, por vezes perigosos. Se Deus não for uma experiência de liberdade, ele não passará de uma palavra. Dizer que Deus existe ou não existe é dizer em termos opostos exatamente a mesma coisa. "Não existem mais provas de sua existência do que de sua inexistência", escreve. Destrinchando o Pai Nosso, ele também mostra como Jesus não deu uma resposta intelectual às questões de nossa precária existência, mas sim uma resposta existencial. Leloup entra na minha filosofia de cabeceira, ao lado de Heidegger, Boff e Frei Betto.
domingo, 29 de novembro de 2009
Casais de bem
"Julie & Julia" é um filme leve, divertido, despretensioso e que cumpre o que promete. Além de mais um show de Meryl Streep, cujo nome redunda em boa interpretação (é a melhor atriz americana dos útlimos 50 anos!), o filme é uma celebração à vida. E o mais engraçado é que, mesmo não sendo um melodrama ou romancezinho hollywoodiano, ao contrário de todos os filmes das últimas décadas, nele todos os casais se amam, se dão bem, vivem suas histórias de amor: não há divórcios nem adultérios.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Espeto ao contrário
Vivo
ser
espetinho de churrasco
carne esquartejada
atravessada por espeto
enroscada em farinhas
dissimulação do corte
e sabor
Espeto ao contrário,
sem consciência,
cânion despelado,
dobradinho, úrico
massa pobre
surpresa nobre
de peça real
fazendo a coorte
da faca ciente do meu fim
Amar
é devorar em cubos
2008
ser
espetinho de churrasco
carne esquartejada
atravessada por espeto
enroscada em farinhas
dissimulação do corte
e sabor
Espeto ao contrário,
sem consciência,
cânion despelado,
dobradinho, úrico
massa pobre
surpresa nobre
de peça real
fazendo a coorte
da faca ciente do meu fim
Amar
é devorar em cubos
2008
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
A descoberta de outra América
Assistir à "A descoberta das Américas" é ter o privilégio de participar daqueles momentos raros em que o milagre teatral acontece, surge da simples mas difícil tríade: ator-espaço-público. Falar da genialidade de mais esse texto de Dario Fo é redundância. Difícil é encontrar um ator à altura de dar conta, com sua voz e corpo, e sozinho em cena desse monólogo, de recriar todo o universo de um épico - narrador e personagens. Apesar dos parcos recursos do espaço em que a peça é apresentada no Espaço Caixa Cultural em São Paulo (um antigo saguão de banco e sobre um simples tablado de madeira, com luz geral), o ator Julio Adrião não precisa de nenhum outro recurso que não sejam a sua voz e os seus gestos para, através de onomatopéias, gramelôs e vozes contar a sua história como faziam os bufões na Idade Média. Ele é o cenário, ele é o figurino, ele é a iluminação e a sonoplastia, ele é o giullare carioca, ele é Ator com letra maiúscula. Pena que a curta temporada deste espetáculo que tem percorrido o mundo há quatro anos só vá até o dia 1/11. Quem for, verá!
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Fado do cabide
(letra para um fado)
Vivo dos luares que guardei
nas lembranças do amor que outrora tive
É desse mal a dor que agora vivo
e do sal que sabe às bocas que beijei
Vivo no presente resgatado
o passado que de tanta imagem sei
amores de lembranças tricotadas
tearam-se entre as notas deste fado
São amores que resistem pendurados
em cabides numa vara sem razão
canastra empoeirada de saudade
vestes de um armário bem trancado
A porta do armário que se abre
Perfuma com seu mofo o ambiente
Fujo para trás, finjo vestir
um traje que já não me cabe
@Copyright by A. Carrico. Todos os direitos reservados.
domingo, 4 de outubro de 2009
Venha a nós, Piccolino
(imagem extraída de roselysilveira.blogspot.com)Venha a nós, Piccolino, para abrandares
essa avalanche de pesares
que assola a Terra,
em guerra!
Abrandai a cobiça desses animais,
criaturas egoístas
que já não se reconhecem iguais.
Lavai no sangue de suas chagas
a ação mal intencionada
dos que se apropriam das divinas criações.
Fazei de teus olhos faróis, vulcão
de irradiação fraterna,
aquecendo a caverna
de todo mau coração.
Amarrai no laço de teu roto cordão
as aflições, angústias,
desditas e desterros,
perpetradas pelos erros
dos que se esquecem de amar.
Salvai aqueles que já não têm voz prá berrar.
Acendei a chama de sua fogueira ecumênica,
que comunicou através da liberdade
a paz, a caridade,
aos povos dos quatro cantos em irmandade.
E com a luz da irmã sua,
Clara santa, estrela lua,
padroeira da televisão,
clareai os caminhos dos
que não querem ver
porque esquecem quem são.
Soprai, Poverello, com a força do vento
a fobia dos que correm contra o Tempo,
dos que não se dão as mãos.
Balançai, com o ar de teus braços abertos,
a certeza dos doutores,
a consciência dos espertos.
Príncipe da Paz,
banhai-nos na água,
que com sua doce voz, suave e clara,
refresca o dia,
e a sede nos sacia.
E limpando-nos dos desamores,
perfumai-nos de suas flores, relembrai-nos seus cheiros.
Adonai-vos de nossos destemperos,
livrai as imensidades,
serenai as ansiedades.
Cantai na língua dos pássaros,
em teu banjo,
a melodia dos arcanjos.
Trazei tua santa insatisfação
para que mudemos o mundo em terno,
e sosseguemos este inferno
numa linda canção.
Ganhai nossas ruas de novo, cavaleiro do povo,
hasteando tua bandeira de beleza.
Volta agora à Terra e em romaria,
onde houver tristeza, leve tua alegria,
velho Chico, jogral e brincante,
senhor dos presépios e dos mamulengos,
dos quatro elementos,
enterrai os tormentos na Paz e no Bem.
Amém.
(texto escrito em 2003)
essa avalanche de pesares
que assola a Terra,
em guerra!
Abrandai a cobiça desses animais,
criaturas egoístas
que já não se reconhecem iguais.
Lavai no sangue de suas chagas
a ação mal intencionada
dos que se apropriam das divinas criações.
Fazei de teus olhos faróis, vulcão
de irradiação fraterna,
aquecendo a caverna
de todo mau coração.
Amarrai no laço de teu roto cordão
as aflições, angústias,
desditas e desterros,
perpetradas pelos erros
dos que se esquecem de amar.
Salvai aqueles que já não têm voz prá berrar.
Acendei a chama de sua fogueira ecumênica,
que comunicou através da liberdade
a paz, a caridade,
aos povos dos quatro cantos em irmandade.
E com a luz da irmã sua,
Clara santa, estrela lua,
padroeira da televisão,
clareai os caminhos dos
que não querem ver
porque esquecem quem são.
Soprai, Poverello, com a força do vento
a fobia dos que correm contra o Tempo,
dos que não se dão as mãos.
Balançai, com o ar de teus braços abertos,
a certeza dos doutores,
a consciência dos espertos.
Príncipe da Paz,
banhai-nos na água,
que com sua doce voz, suave e clara,
refresca o dia,
e a sede nos sacia.
E limpando-nos dos desamores,
perfumai-nos de suas flores, relembrai-nos seus cheiros.
Adonai-vos de nossos destemperos,
livrai as imensidades,
serenai as ansiedades.
Cantai na língua dos pássaros,
em teu banjo,
a melodia dos arcanjos.
Trazei tua santa insatisfação
para que mudemos o mundo em terno,
e sosseguemos este inferno
numa linda canção.
Ganhai nossas ruas de novo, cavaleiro do povo,
hasteando tua bandeira de beleza.
Volta agora à Terra e em romaria,
onde houver tristeza, leve tua alegria,
velho Chico, jogral e brincante,
senhor dos presépios e dos mamulengos,
dos quatro elementos,
enterrai os tormentos na Paz e no Bem.
Amém.
(texto escrito em 2003)
À benção, Alter Christo! Salve teu dia 04 de outubro!
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Rio de Janeiro, meu amor
Durante muito tempo ficou feio falar bem do Brasil, elogiar as melhoras do país pegava mal. Herança dos anos da mentira, das ditaduras, desconfiança por uma classe corrupta de instituições decadentes e de políticos corruptos. Isso impede muitas vezes as pessoas de elogiarem aquilo que vem melhorando. Viajei recentemente para fora e nunca na vida pensei que veria tanta gente se reportar a mim como brasileiro da maneira como fizeram; nunca vi tantas manchetes internacionais positivas sobre o país. Acho que a escolha da cidade mais bonita do mundo, o Rio de Janeiro, para finalmente sediar uma Olímpiada é apenas reflexo disso, de que o Brasil ocupa uma posição de destaque dentro da nova ordem mundial (não apenas economica e política mas também simbolicamente). E isso pega mal para as hordas de urubus que insistem em apenas alardear nossas mazelas e fechar os olhos para o nosso desenvolvimento. É preciso ver que muita coisa começa a dar certo. Talvez agora será a vez do Brasil, como realidade original que é, dizer algo de original ao mundo. E fico feliz porque nunca concordei com a fabricação de uma capital artificial para o país, Brasília, apesar de adorar a arte de Niemeyer (o desvio da capital foi um dos graves equívocos de JK, no meu ponto de vista). Para o mundo o Rio sempre foi e continua sendo a capital desta República e para nós, se não o é de direito, segue sendo nossa capital espiritual. Em que pese São Paulo ser a locomotiva destas terras brasilis, São Sebastião do Rio de Janeiro é a síntese da nossa alma, nosso cartão de visitas. Minha querida Rio de Janeiro, esta é a sua chance de mostrar que você não é feita só de violência e corrupção.
sábado, 8 de agosto de 2009
A culpa não é do espelho se a cara é torta
A política brasileira ainda não saiu do século XVI. Desde a nossa colonização, ou invasão, pelos portugueses, quando foram designadas as capitanias hereditárias, cada mandatário de cargo público se sente no direito de fazer o que bem quiser. No primeiro documento oficial que nos cita como entidade territorial, Pero Vaz de Caminha pede um emprego para o seu cunhado. Aliás, segundo Darcy Ribeiro em O povo brasileiro, o cunhadismo era uma prática cultural comum entre os povos indígenas, aproveitada e ratificada pelos colonizadores que a transformaram em troca de favores. Se por um lado a democracia consolidou-se desde o fim da última ditadura, por outro, o paternalismo é o que assemelha nossa república aos regimes autoritários.
Um caso que espelha claramente a postura de coronel dos políticos brasileiros é o recente bate-boca entre eminentes senadores, na última segunda-feira. Pedro Simon usou da tribuna do Senado para defender o afastamento de José Sarney; Renan Calheiros declarou que, apesar daquele sermão, em particular, seu nobre colega gaúcho acabara de manifestar solidariedade ao político maranhense. Simon aproveitou para rememorar um episódio de 17 anos quando, segundo suas palavras, na ocasião do impeachment de Collor, Renan teria apoiado seu ex-padrinho e conterrâneo para mudar de postura só depois da certeza da derrocada collorida. Collor tomou a palavra e, visivelmente abalado, deflagrou uma série de vitupérios contra Simon, numa linguagem próxima dos discursos da época de Getúlio Vargas e Adhemar de Barros. Collor, filho de um senador que matou um desafeto político em plenário, à queima roupa, e neto de um ministro getulista, discursou como se ainda fosse um manda-chuva, com um semblante cerrado de ditador tentando intimidar o tribuno que outrora tanta dor de cabeça já lhe causou; a ele e a Renan. Tanto Fernando quanto Calheiros renunciaram para não serem expulsos. Um da presidência da República – a mesma já ocupada por Sarney – por ter instalado uma quadrilha dentro do Planalto. O outro, renunciou da presidência dessa mesma casa, o Senado, por pagar a pensão da ex-amante com dinheiro público. Algumas acusações de falcatruas parecidas com essas, pautadas em claros indícios, pesam sobre a cabeça de Sarney.
De todo o circo promovido na reabertura das sessões do Senado, fica claro o tom do discurso dos senadores Renan e Collor. Falam como donatários de capitanias, como se estivessem acima da média do povo. Nenhum se coloca como representante legal da população; nenhum sustenta na voz o mandato em prol da coisa pública. Querem antes defender as suas “honras” coronelescas, as suas carreiras políticas, os seus patrimônios, os seus mandatos repetidos ad infinitum. Afinal, no Brasil, a coisa pública é terra de ninguém, basta ver o estado dos nossos orelhões e praças públicas. Basta ver as pichações e depredações dos nossos monumentos. Nesta terra, político é aquele que se locupleta.
Em 1835, o dramaturgo Nicolai Gogol, denunciando a corrupção da Rússia da sua época, escreveu na peça “O inspetor Geral”: “A culpa não é do espelho se a cara é torta”. Tanto Collor quanto Renan culpam a imprensa pelo desejo da opinião pública de que Sarney, no mínimo, renuncie à presidência do Senado. Expiam nos jornalistas seus próprios pecados. Mas a imprensa brasileira é, e sempre foi, apenas o espelho dos fatos. Ela não tem culpa se a nossa Câmara Alta tem a cara torta.
Um caso que espelha claramente a postura de coronel dos políticos brasileiros é o recente bate-boca entre eminentes senadores, na última segunda-feira. Pedro Simon usou da tribuna do Senado para defender o afastamento de José Sarney; Renan Calheiros declarou que, apesar daquele sermão, em particular, seu nobre colega gaúcho acabara de manifestar solidariedade ao político maranhense. Simon aproveitou para rememorar um episódio de 17 anos quando, segundo suas palavras, na ocasião do impeachment de Collor, Renan teria apoiado seu ex-padrinho e conterrâneo para mudar de postura só depois da certeza da derrocada collorida. Collor tomou a palavra e, visivelmente abalado, deflagrou uma série de vitupérios contra Simon, numa linguagem próxima dos discursos da época de Getúlio Vargas e Adhemar de Barros. Collor, filho de um senador que matou um desafeto político em plenário, à queima roupa, e neto de um ministro getulista, discursou como se ainda fosse um manda-chuva, com um semblante cerrado de ditador tentando intimidar o tribuno que outrora tanta dor de cabeça já lhe causou; a ele e a Renan. Tanto Fernando quanto Calheiros renunciaram para não serem expulsos. Um da presidência da República – a mesma já ocupada por Sarney – por ter instalado uma quadrilha dentro do Planalto. O outro, renunciou da presidência dessa mesma casa, o Senado, por pagar a pensão da ex-amante com dinheiro público. Algumas acusações de falcatruas parecidas com essas, pautadas em claros indícios, pesam sobre a cabeça de Sarney.
De todo o circo promovido na reabertura das sessões do Senado, fica claro o tom do discurso dos senadores Renan e Collor. Falam como donatários de capitanias, como se estivessem acima da média do povo. Nenhum se coloca como representante legal da população; nenhum sustenta na voz o mandato em prol da coisa pública. Querem antes defender as suas “honras” coronelescas, as suas carreiras políticas, os seus patrimônios, os seus mandatos repetidos ad infinitum. Afinal, no Brasil, a coisa pública é terra de ninguém, basta ver o estado dos nossos orelhões e praças públicas. Basta ver as pichações e depredações dos nossos monumentos. Nesta terra, político é aquele que se locupleta.
Em 1835, o dramaturgo Nicolai Gogol, denunciando a corrupção da Rússia da sua época, escreveu na peça “O inspetor Geral”: “A culpa não é do espelho se a cara é torta”. Tanto Collor quanto Renan culpam a imprensa pelo desejo da opinião pública de que Sarney, no mínimo, renuncie à presidência do Senado. Expiam nos jornalistas seus próprios pecados. Mas a imprensa brasileira é, e sempre foi, apenas o espelho dos fatos. Ela não tem culpa se a nossa Câmara Alta tem a cara torta.
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