Roberto Carlos é um dos maiores mestres da canção popular em português. Se levarmos em conta que canção é um gênero que deve unir palavras à melodia numa harmonia o mais próxima da fala possível, quem maior que o rei? Como compositor, metade do seu brilho deve-se ao injustiçado Erasmo (que eu adoro) é preciso dizer. Mas o Erasmo, outro gigante, dá outro post. O quê criticar em canções como: "Como é grande o meu amor por você", "Despedida", "As curvas da estrada de Santos", "Detalhes", "Você não sabe", "De tanto amor", "Costumes", "Debaixo dos caracóis", "Desabafo", "Emoções", "Esqueça", "Sua estupidez", "As flores do jardim da nossa casa" ? Letras simplérrimas, que qualquer um entende e repete imediatamente, refrões leves, perfeitamente ajustados às melodias, e algumas com harmonias bem interessantes. Em arte, o simples é o mais difícil. Tem a fase erótica, de "Cavalgada", "Café da manhã", "Proposta", "Concavo e convexo", "Os seus botões", "Seu corpo"... Quando a gente tá apaixonado, está tudo dito ali. Da parte religiosa, gosto muito de "O terço". Quem tem coragem de questionar uma vírgula da letra de "Fera Ferida"? Roberto também é um ótimo cantor, suave, de tessitura aveludada e técnica apurada, canta como se falasse, sem esforço atinge notas difíceis na intensidade que as emite, evita vibratos no melhor estilo bossa-nova. Aliás, ele começou jovem imitando João Gilberto, depois formou uma banda de rock com Erasmo e Tim Maia, virou "roqueiro" da jovem guarda, hippie, e só depois a persona romântica que cristalisou. O disco dele com músicas do Tom que gravou no ano passado ao lado de Caetano é uma pérola. Também é muito carismático, ótimo de palco, com aquela cara de índia velha continua derretendo mocinhas! E tem uma feição de gente do povo; reserva sua vida particular e não vive emitindo opinião sobre tudo. Muita gente reclama que o especial dele é igual há 300 anos, mas aquele show, que eu já vi ao vivo, é a cristalização de um trabalho de anos de depuração, o formato final criado por ele e que, a essa altura, dificilmente irá mudar. Roberto trabalhou muito para chegar naquilo. E quanto ao conceito de brega... bem, brega para mim é quem ainda se prende a essas classificações incoerentes. Todo mundo chama de brega aquilo que não gosta (já ouvi chamarem de brega de Tom Zé a Vivaldi!) Que a produção de Roberto, como compositor, caiu muito dos 80 em diante, eu concordo (ainda que como cantor ele amadureça a cada ano). Mas que ele é um gênio, isso ninguém pode negar.